RPS Caso dem Foco
Maio 2026
FESTA DE ESPUMA AO MICROSCÓPIO
Rita Santarsiere, MD1
Nicolas Kozakowski, MD 2
1 Rita Santarsiere, Department of Medical Translational Sciences, University of Campania "L. Vanvitelli", Naples, Italy2 Nicolas Kozakowski, Department of Pathology, Medical University of Vienna, Vienna, Austria
HISTÓRIA CLÍNICA
Homem de meia-idade, hipertenso e sobrepeso, apresentava doença renal crônica estágio IIIb (TFG 35 mL/min/1,73 m², CKD-EPI) e proteinúria nefrótica (4,4 g/24 h).
BIOPSIA RENAL
A biópsia era limitada, contendo apenas cinco glomérulos não-escleróticos (e dez glomérulos escleróticos), Figura 1. Enquanto alguns glomérulos apresentavam morfologia normal (Figura 2A), outros apresentavam esclerose segmentar, com capilares obliterados e aumento de matriz extracelular (Figura 2B). Outros glomérulos apresentavam sinequia capsular (Figura 2C) e podócitos proeminentes. Na coloração pela prata, não havia remodelamento da membrana basal. As artérias apresentavam fibrose intimal concêntrica moderada e as arteríolas mostravam hialinose acentuada. Havia atrofia tubular e fibrose intersticial de grau leve a moderado, focal (cerca de 40%). Os glomérulos viáveis exibiam vacuolização citoplasmática variável nos podócitos, variando de discreta a acentuada (Figura 3A-C). A imuno-histoquímica indireta em parafina (após tratamento com protease) com anticorpos IgG, IgM, IgA, C3, e C1q revelou positividade moderada para IgM e C1q em segmentos glomerulares esclerosados. O material para microscopia eletrônica não continha estruturas glomerulares avaliáveis.
Figura 1. Três glomérulos com esclerose segmentar (flecha preta) e fibrose intersticial/atrofia tubular moderada. Escala = 200mm, coloração PAS.
Figura 2. Glomérulo morfologicamente normal (A); glomérulo com esclerose segmentar, sinequia capsular e alterações das células epiteliais parietais, incluindo hiperplasia (cabeça de seta), núcleos proeminentes (asterisco), estruturas pseudotubulares (oval) e mitose de célula epitelial parietal (seta preta); outro glomérulo com esclerose segmentar e hialinose. Pode-se apreciar o aspecto espumoso do citoplasma vacuolizado dos podócitos (cabeça de seta preta). Escala = 50 µm, coloração PAS.
Figura 3. Vacuolização podocitária proeminente (A. AFOG tricromo escala= 50mm; B. PAS escala= 10mm; C. AFOG escala = 10mm).
DIAGNÓSTICO
Nesta fase da investigação, os achados histológicos eram altamente sugestivos de acometimento renal por doença de depósito (com a doença de Fabry como principal hipótese), associada a esclerose segmentar secundária.
SEGUIMENTO CLÍNICO
Investigações adicionais revelaram história familiar significativa. O irmão do paciente havia sido submetido a transplante renal anos antes por doença renal crônica de etiologia desconhecida. A atividade de alfa-galactosidase leucocitária era indetectável (<1; normal: >51 nmol/mg de proteína/h), e a análise genética identificou uma mutação missense no gene correspondente (variante patogênica c.335G>T no gene GLA), confirmando o diagnóstico de doença de Fabry.
DISCUSSÃO
A doença de Fabry (DF) é uma doença de depósito lisossomal ligada ao cromossomo X. A mutação no gene GLA leva à deficiência da enzima alfa-galactosidase A, resultando em dano orgânico por acúmulo de glicoesfingolipídios, especialmente globotriaosilceramida [1]. A inativação do gene GLA parece levar à produção de mediadores secundários que promovem lesão de podócitos, desencadeando nefropatia crônica progressiva, com evolução para glomeruloesclerose e insuficiência renal [2].
A histopatologia renal da DF evidencia podócitos, células epiteliais parietais e células epiteliais tubulares distais hipertrofiadas com vacuolização citoplasmática. Na microscopia eletrônica, observam-se inclusões multilamelares de glicoesfingolipídios, descritas como figuras de mielina ou corpos de inclusão zebra [3]. Neste caso específico, não houve avaliação por microscopia eletrônica, mas são fornecidas imagens ilustrativas dessas alterações ultraestruturais em outro caso (Figura 4). Bosquetti et al. demonstraram que o tratamento com cloroquina em doses subletais (1.0 µg/mL) pode induzir alterações semelhantes nos podócitos, incluindo acúmulo lisossomal de lipídios, como observado na doença de Fabry.
A apresentação clínica da doença pode ser classificada como clássica ou não clássica (início tardio). A forma clássica está associada à ausência ou quase ausência completa da atividade da alfa-galactosidase A e início na infância, com manifestações como dor neuropática, córnea verticilata, sintomas gastrointestinais, hipohidrose, angioqueratomas, doença renal crônica proteinúrica, cardiomiopatia hipertrófica, arritmias, hipoacusia e acidente vascular cerebral. A forma não clássica ocorre em homens com atividade enzimática >1% e apresenta início mais tardio, predominantemente com acometimento cardíaco e renal, sem manifestações cutâneas ou cerebrovasculares.
A terapia de reposição enzimática, com ou sem terapia chaperone, pode prevenir e/ou retardar a progressão do dano orgânico na doença de Fabry.

Figura 4. Aspecto típico dos podócitos na microscopia eletrônica na doença de Fabry (DF). – 4A Barra de escala = 50 µm, 4B Barra de escala = 2 µm. As figuras mostram alterações podocitárias globais, com numerosas estruturas lamelares intracitoplasmáticas, organizadas em padrão concêntrico correspondente às inclusões lisossomais em maiores aumentos (corpos de inclusão zebra/mieloides – cabeça de seta preta), além de apagamento dos processos podocitários.
REFERÊNCIAS: